Felipe Rassi atua em um campo em que estatísticas de crédito e arquitetura jurídica se encontram, porque o avanço do crédito não performado tende a reorganizar tanto as decisões de bancos quanto a dinâmica de compra e venda de carteiras. Assim, acompanhar NPLs (Non-Performing Loans) no Brasil pede um olhar em camadas: indicadores que sinalizam estresse, números de transações que sugerem liquidez e, por fim, critérios técnicos que separam volume de recuperabilidade.
Indicadores que alimentam o estoque de crédito não performado
Uma forma de começar é observar a inadimplência em recortes amplos do sistema financeiro. O Banco Central divulga estatísticas de crédito que incluem o percentual de inadimplência considerando atrasos acima de 90 dias, métrica usada com frequência para ler o grau de deterioração das carteiras. Esse dado não equivale automaticamente ao “tamanho do mercado de NPL”, contudo ajuda a entender por que determinadas instituições passam a buscar redução de exposição.

No mesmo conjunto de sinais, aparecem endividamento e comprometimento de renda. Em números divulgados com base em séries do Banco Central, o endividamento das famílias chegou a 49,8% ao final de 2025, enquanto o comprometimento de renda atingiu 29,3%, máxima histórica na série mencionada. Nesse sentido, Felipe Rassi nota que quando o ambiente pressiona o orçamento das famílias e encarece o crédito, tende a aumentar a formação de atrasos prolongados e renegociações.
Volume transacionado e o que ele diz sobre a liquidez do setor
A segunda camada é o que efetivamente circula por meio de cessão de crédito. Um levantamento divulgado pela Recovery indicou que a venda de carteiras inadimplentes atingiu R$ 34 bilhões em 2025, contra R$ 28 bilhões em 2024, alta de 21,4%. Por outro lado, o número agregado precisa ser lido com cuidado, porque ele não informa sozinho a qualidade das carteiras cedidas, nem os níveis de deságio praticados, nem o custo de recuperação.
Ainda assim, o crescimento do volume sugere consolidação do instrumento como parte da gestão de balanço e de liquidez, sobretudo quando instituições buscam previsibilidade de caixa e redução de incertezas. Para Felipe Rassi, o dado de transação é útil como termômetro de mercado, porém a decisão econômica se define quando o comprador consegue estimar, com governança, o que é recuperável, em quanto tempo e com quais custos operacionais e jurídicos.
Tendências de 2026: seletividade, governança e pressão por eficiência
À medida que o mercado cresce, aumenta a seletividade. Investidores tendem a exigir documentação mais consistente, cadeia de titularidade clara e regras contratuais que reduzam assimetrias de informação. Nessa linha, a Deloitte divulgou estimativas em que a venda média de NPL por cedente poderia passar de R$ 1,3 bilhão em 2024 para R$ 1,7 bilhão em 2025 e R$ 2,1 bilhões em 2026, além de projeções de investimento médio por respondente no mesmo período.
Dessa forma, não é apenas uma discussão de “mais volume”. O movimento traz para o centro temas como critérios de elegibilidade de créditos, saneamento de dados, definição de responsabilidades entre cedente e cessionário e trilhas de decisão para cobrança e negociação. Nessa perspectiva, Felipe Rassi, como especialista jurídico, em créditos estressados e no mercado financeiro, se insere no debate técnico que sustenta operações com escala, porque a previsibilidade jurídica costuma impactar diretamente preço, apetite a risco e tempo de recuperação de ativos.
Como interpretar números sem perder a variável decisiva
Os indicadores macro ajudam a entender o cenário, e os volumes transacionados ajudam a medir tração. Contudo, a variável decisiva para retorno costuma estar na capacidade de transformar estatística em execução: documentação suficiente, titularidade comprovável, estratégia de cobrança e governança de custos.
Por fim, Felipe Rassi aparece como referência técnica para lembrar que o mercado de NPL é simultaneamente jurídico, financeiro e operacional. Considerando o exposto, acompanhar números é necessário, porém entender o que há por trás deles é o que define se uma carteira de crédito não performado será apenas um volume cedido ou um ativo com tese de recuperação bem estruturada.
Autor: Diego Rodríguez Velázquez