Voo 14 do maior foguete já construído estava marcado para 22 de setembro e ainda depende de aprovação regulatória; plano prevê seis voltas ao redor da Terra, quase 10 horas no espaço e 26 Tbps de capacidade extra para a rede de internet via satélite
A SpaceX adiou para 28 de setembro o voo 14 da Starship, a primeira missão planejada para colocar o megafoguete em órbita da Terra. O lançamento estava previsto para esta terça-feira (22) e ainda depende de aprovação regulatória; a empresa não explicou o motivo da mudança.
A nova data não diminui o peso do teste, considerado um dos mais importantes do programa. A nave deverá passar quase 10 horas no espaço, completar cerca de seis voltas ao redor do planeta e retornar para um pouso controlado no Oceano Pacífico, a oeste do Chile. Para quem acompanha do Brasil, a janela de 75 minutos abre às 7h15 no horário do Texas, o que corresponde a 9h15 no horário de Brasília.
Por que chegar à órbita muda o jogo
Desde a estreia, em abril de 2023, a Starship fez 13 voos, dois deles em 2026, todos em trajetórias suborbitais. Na prática, isso significa que o veículo subia ao espaço e descia sem completar uma volta inteira ao redor da Terra, estratégia que permitiu coletar dados com menor risco.
Alcançar a órbita é o passo que destrava a proposta central do projeto. Segundo a própria SpaceX, é a partir dessa etapa que começa a fase de desenvolvimento para tornar a Starship totalmente e rapidamente reutilizável, capaz de voar, voltar e decolar de novo em pouco tempo, como acontece com um avião.
O contexto empresarial também pesa. Este será o segundo lançamento da Starship desde que a SpaceX abriu capital em junho, e a meta de longo prazo é substituir gradualmente os foguetes Falcon 9 e Falcon Heavy pelo novo sistema. Para isso, a Starship precisa provar que consegue chegar à órbita, voltar e ser reaproveitada com frequência.
Starlink V3: dez vezes mais capacidade por lançamento
A bordo estarão 26 satélites Starlink V3, que fazem sua estreia em órbita operacional. Cada unidade foi projetada para acrescentar 1 Tbps (terabit por segundo) de capacidade à rede, o que soma 26 Tbps só nesta missão. A título de comparação, isso representa cerca de dez vezes a capacidade adicionada por um lançamento de satélites V2 mini a bordo do Falcon 9.
Hoje a constelação tem mais de 11 mil satélites ativos em órbita baixa, mas nenhum da geração V3. O novo modelo é maior e mais potente, foi desenhado para ser transportado pela Starship e, de acordo com a SpaceX, deve ampliar velocidade e confiabilidade da conexão.
Depois de liberados, os satélites vão abrir antenas e painéis solares, estabelecer comunicação com o restante da constelação e usar propulsores próprios para subir até a órbita de trabalho. A previsão é que comecem a atender clientes algumas semanas após os testes iniciais. O tema interessa diretamente ao Brasil: a Starlink tinha cerca de 700 mil acessos no país em março de 2026, segundo dados da Anatel.
As mudanças técnicas no Super Heavy
O primeiro estágio, o propulsor Super Heavy, chega ao voo com ajustes feitos a partir dos problemas da missão anterior. No voo 13, três dos motores centrais mostraram sinais de obstrução por gelo durante a queima de retorno, que terminou antes do previsto, e apenas oito dos 13 motores planejados reacenderam na tentativa de pouso.
Para corrigir as falhas, a SpaceX alterou o sistema de filtragem dos motores e fez mudanças de software voltadas à confiabilidade do religamento dos motores Raptor. Após a separação, o Super Heavy deve fazer a queima de retorno e a queima de pouso, encerrando a trajetória com um splashdown no Golfo do México cerca de sete minutos após a decolagem.
Desta vez, não haverá a manobra mais espetacular do programa. Nem o propulsor nem a nave serão capturados pelos braços mecânicos da torre da Starbase. A empresa já conseguiu agarrar o Super Heavy com a torre três vezes, mas nunca fez isso com o estágio superior, teste que ficou para voos futuros.
Escudo térmico: primeira reutilização de ladrilhos
O ponto mais delicado da engenharia está na proteção contra o calor extremo da reentrada. A SpaceX instalou mecanismos para reforçar a fixação dos ladrilhos em áreas mais vulneráveis, modificou regiões que poderiam permitir a passagem de plasma e incluiu peças curvas para avaliação.
Parte dessas mudanças veio de uma fonte inédita: a nave do voo 13 liberou 20 satélites, reacendeu um motor no espaço e pousou no Oceano Índico sem explodir. Rebocada por 24 dias, chegou à Ilha Christmas em 18 de agosto, onde engenheiros coletaram amostras do escudo térmico que viraram alterações de projeto. Além disso, dois ladrilhos recuperados da Ship 40 serão instalados na Ship 41, a primeira reutilização desse componente na história da Starship.
Para acompanhar o desempenho em tempo real, três dos satélites V3 levarão câmeras apontadas para o escudo. Depois das seis órbitas, a cerca de 275 quilômetros de altitude, a nave fará a queima de desórbita com um único motor Raptor, aproximadamente nove horas após o lançamento, antes de reentrar na atmosfera e descer no Pacífico. Se tudo correr como planejado, os dados desse retorno vão definir quanto falta para a Starship se tornar, de fato, um veículo reutilizável em escala.
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