Na abertura da ONU, Lula defende soberania, critica o Conselho de Segurança e leva a eleição brasileira à tribuna

Freya Valstrom
Por Freya Valstrom

A 12 dias do primeiro turno, o presidente fez o discurso inaugural da 81ª Assembleia Geral em Nova York, tratou de guerras, tarifas, Pix e regulação das big techs, e voltou ao Brasil no mesmo dia

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva abriu nesta terça-feira (22) o debate geral da 81ª Assembleia Geral das Nações Unidas, em Nova York. Ele foi o primeiro chefe de Estado a falar, seguindo uma tradição que coloca o Brasil na abertura dos discursos desde 1955, e foi seguido pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. A fala teve como eixos a soberania nacional, o multilateralismo e a democracia, e ocorreu num momento em que os Estados Unidos aplicam novas tarifas sobre exportações brasileiras e a 12 dias do primeiro turno das eleições no país. CNN BrasilExame

A participação tem peso histórico para o petista. Foi a 11ª vez que Lula esteve na abertura da Assembleia como presidente: ele discursou pela primeira vez em 2003 e voltou à tribuna em 2004, 2006, 2007, 2008, 2009, 2023, 2024 e 2025. Em seu próprio texto, ele disse que esta era a décima ocasião em que abria o debate geral, já que em 2005 participou da reunião de alto nível sem abrir o debate e, em 2010, não viajou, sendo substituído pelo então chanceler Celso Amorim. Poder360Poder360

Críticas à ONU e aos conflitos armados

Lula começou em tom duro com a própria organização. Para ele, a ONU atravessa seu momento mais crítico e está falhando na tarefa de evitar guerras. “Sua credibilidade nunca esteve tão baixa”, afirmou, acrescentando que todos são reféns do imobilismo de um Conselho de Segurança que não cumpre seu papel. Na mesma linha, classificou a guerra como “a falência total da política”. cnnbrasilExame

O Oriente Médio ocupou parte relevante do discurso. O presidente criticou o governo de Benjamin Netanyahu pelo que classificou como genocídio na Faixa de Gaza e, ao mesmo tempo, disse que civis israelenses pagaram o preço dos atos terroristas do Hamas. Ele também foi aplaudido ao defender a relatora especial da ONU para os territórios palestinos ocupados, Francesca Albanese. cnnbrasilcnnbrasil

Sobre o conflito envolvendo o Irã, Lula afirmou que o Estreito de Ormuz virou trincheira de guerra quando deveria seguir como rota vital para o comércio, e lembrou que famílias do mundo todo sentiram o aumento de preços de combustíveis, fertilizantes e alimentos. Ao final desse bloco, defendeu uma reforma da ONU e do Conselho de Segurança. cnnbrasilPoder360

Tarifaço, Pix e regulação das big techs

Na parte econômica, o recado teve endereço claro, ainda que sem citar nomes. Lula disse que a Organização Mundial do Comércio “respira por aparelhos” e que países usam tarifas como arma e chantagem. A estratégia, segundo integrantes do governo ouvidos pela Exame, era defender princípios como a não intervenção e a autonomia dos países sem transformar o púlpito em palco de confronto direto com Washington. poder360Exame

O Pix também apareceu na tribuna. O presidente afirmou que o Brasil não vai ceder a pressões de multinacionais interessadas em privatizar o sistema, que ele descreveu como uma infraestrutura pública e gratuita responsável por ampliar a inclusão financeira de milhões de brasileiros. CNN Brasil

Outro ponto foi a tecnologia. Lula chamou de omissão histórica a falta de regulação das big techs e da inteligência artificial e criticou um grupo de “tecnoligarcas” que, segundo ele, quer um neoliberalismo sem regras. No mesmo discurso, disse que o Brasil não vai tolerar o negócio das bets e classificou como ilegal o embargo econômico a Cuba. poder360poder360

Eleição e soberania no centro da mensagem

Com a votação marcada para 4 de outubro, o calendário eleitoral atravessou a fala. Lula citou as eleições brasileiras, defendeu a soberania nacional e declarou que “o Brasil não cabe no quintal de ninguém”. O Congresso em Foco registrou ainda críticas à ingerência externa e a defesa do fim da escala 6×1. Poder360congressoemfoco

Não é a primeira vez que um presidente brasileiro usa a ONU em ano de eleição para falar de temas internos. Em 2022, Jair Bolsonaro citou a recuperação econômica pós-pandemia; em 2014, Dilma Rousseff destacou a saída do Brasil do Mapa da Fome; e, em 2006, o próprio Lula mencionou a queda do desemprego e o Bolsa Família. cnnbrasil

Na área de segurança, o presidente defendeu cooperação internacional contra a lavagem de dinheiro de criminosos no exterior e para conter o fluxo de armas e recursos que abastece o crime organizado, citando uma proposta entregue ao presidente dos Estados Unidos. Ele também mencionou a lei antifacção aprovada no Brasil. CNN BrasilCNN Brasil

Agenda curta e compromissos paralelos

A passagem por Nova York foi rápida por causa da campanha. Lula chegou no domingo (20) e tinha retorno previsto para a própria terça-feira, logo após o discurso. Antes do evento, encontrou-se com o prefeito de Nova York, Zohran Mamdani, com o senador Bernie Sanders e com o presidente uruguaio, Yamandú Orsi. Poder360cnnbrasil

Também esteve com o secretário-geral António Guterres, que está na fase final do mandato. A delegação brasileira, porém, segue com agenda na ONU. O chanceler Mauro Vieira presidirá a reunião da Zopacas, enquanto o ministro Wellington Dias participará de atividades da Aliança Global contra a Fome e a Pobreza. Agência Brasilpoder360

Para quem quiser conferir cada trecho, a íntegra do discurso foi publicada em PDF e o vídeo tem cerca de 22 minutos. A repercussão deve seguir nos próximos dias, tanto na diplomacia quanto na campanha, já que o texto tocou em temas que dividem eleitores, como a relação com os Estados Unidos e o papel do Estado na economia digital. poder360

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