Crunch nos games: Por que as horas extras continuam se repetindo?

Freya Valstrom
Por Freya Valstrom
Murilo Moura Alencar

A indústria de games tem um nome próprio para um dos seus problemas mais persistentes, e Murilo Moura Alencar, Tech, People & Game Strategist, frisa que ele atravessa estúdios grandes e pequenos há décadas: crunch. O termo descreve os períodos de horas extras intensas, muitas vezes por semanas ou meses, que antecedem o lançamento de um jogo.

O tema ganhou visibilidade em 2004, quando a esposa de um desenvolvedor da Electronic Arts publicou na internet, sob o pseudônimo EA Spouse, um relato sobre as jornadas exaustivas enfrentadas pela equipe. Desde então, o assunto voltou ao debate inúmeras vezes. A seguir, por que o erro se repete e como estúdios podem evitá-lo.

Por que o crunch se repete?

A causa mais comum é o planejamento irrealista. Projetos de jogos são difíceis de estimar, porque grande parte do trabalho depende de descobrir o que torna o jogo divertido, algo que só aparece com testes e iterações. Quando o cronograma ignora essa incerteza, o atraso chega cedo ou tarde.

Datas de lançamento fixadas por razões comerciais, como feiras, temporadas de vendas ou compromissos com investidores, agravam o problema. Quando a data não se move e o escopo também não, a única variável restante passa a ser o tempo das pessoas.

O custo que não aparece no lançamento

Em 2018, uma declaração de um dos fundadores da Rockstar Games sobre semanas de trabalho de cem horas durante o desenvolvimento de Red Dead Redemption 2 provocou forte repercussão. A empresa esclareceu depois que a fala se referia a um grupo pequeno, mas o episódio reacendeu o debate sobre a cultura de horas extras no setor.

Murilo Alencar pondera que o crunch costuma ser tratado como um sacrifício temporário que garante a qualidade do jogo. Na prática, o cansaço acumulado aumenta a quantidade de erros, reduz a criatividade e leva profissionais experientes a deixar a empresa ou até a indústria. O estúdio entrega o jogo, mas perde parte da capacidade de fazer o próximo.

O papel da cultura

Em muitos estúdios, o crunch não é imposto formalmente. Ele surge da paixão das próprias equipes pelo projeto e da pressão implícita de acompanhar colegas que ficam até tarde. Quando a dedicação extrema é celebrada, trabalhar em ritmo saudável passa a parecer falta de comprometimento.

Na visão de Murilo Moura Alencar, a liderança tem papel decisivo nesse ponto. Gestores que trabalham noites e fins de semana, ou que elogiam publicamente quem faz isso, sinalizam o que é esperado, mesmo sem dizer uma palavra. Respeitar os próprios limites e incentivar o descanso depois de entregas importantes é uma forma concreta de mudar essa cultura.

Como estúdios podem evitar

O caminho mais eficaz começa no planejamento. Reservar margem para imprevistos, validar a mecânica central cedo e definir o que pode ser cortado se o tempo apertar transforma a pressão final em decisões de escopo, e não em horas extras.

Também ajuda acompanhar indicadores simples, como horas trabalhadas e uso de folgas, e tratar sinais de sobrecarga como problema de gestão. Adiar um lançamento ou reduzir conteúdo costuma custar menos do que perder pessoas experientes ou lançar um jogo cheio de falhas.

Jogos melhores vêm de equipes descansadas

O crunch persiste porque muitas vezes parece funcionar no curto prazo. O jogo sai, as vendas acontecem e o custo humano fica invisível nos números de vendas e nas avaliações da imprensa.

Em última análise, Murilo Moura Alencar comenta que estúdios que planejam com realismo, cortam escopo com coragem e protegem o tempo das equipes constroem algo mais valioso do que um lançamento isolado: a capacidade de fazer bons jogos de forma sustentável, com pessoas que querem continuar criando juntas.

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