O país subiu 58 posições desde 2022 e alcançou a 52ª colocação no Índice Mundial da Repórteres Sem Fronteiras, enquanto o mundo registra o pior momento para o jornalismo desde a criação da pesquisa.
O Brasil conseguiu algo que não ocorria desde que a Repórteres Sem Fronteiras (RSF) começou a medir a liberdade de imprensa no mundo: ultrapassar os Estados Unidos no ranking global. O Índice Mundial de Liberdade de Imprensa de 2026, divulgado no dia 30 de abril pela organização, mostrou que o Brasil subiu para a 52ª posição, ultrapassando, pela primeira vez, os Estados Unidos, que ocupam o 64º lugar. O país avançou 58 posições desde 2022, quando ocupava o 111º lugar. O resultado chama atenção não apenas pelo salto acumulado desde o período mais tenso das relações entre a imprensa e o Palácio do Planalto, mas também pelo contexto em que acontece: um mundo em que o jornalismo enfrenta a pior situação em 25 anos de monitoramento. CNN Brasil
A liberdade de imprensa no mundo atingiu em 2026 seu pior patamar desde a criação do Ranking Mundial da Repórteres Sem Fronteiras, há 25 anos. Entre os 180 países avaliados, mais da metade, ou seja, 52,2% deles, aparece agora em situação considerada “difícil” ou “muito grave” para o exercício do jornalismo, um salto expressivo em relação a 2002, quando esse grupo representava apenas 13,7% dos territórios analisados. O dado desnuda uma tendência que os especialistas já acompanham com preocupação crescente: a erosão da liberdade de imprensa deixou de ser um fenômeno restrito a regimes autoritários e começou a contaminar democracias consolidadas. desinformante
O que explica a melhora do Brasil
A RSF atribuiu a melhora brasileira à implementação de protocolos que investigam crimes contra profissionais de imprensa e ao fato de não haver registros de assassinatos de jornalistas no país desde 2022. A facilitação do acesso à informação no Brasil também é apontada como um fator para a melhora na posição, assim como o fim de hostilidades do governo contra a imprensa do país, que ocorria no período anterior a 2023, segundo a organização. Artur Romeu, diretor da RSF para a América Latina, explicou à Agência Brasil que a volta de um ambiente institucional mais respeitoso entre governo e imprensa foi determinante para o salto. Ele citou também medidas concretas como a criação de um Observatório Nacional de Violência contra Jornalistas e a adoção de um protocolo específico para a investigação de crimes cometidos contra profissionais da comunicação. CNN Brasil
Entre 2010 e 2022, foram 35 jornalistas assassinados no Brasil. O Brasil tem observado uma agenda da regulação das plataformas, de inteligência artificial, da defesa da integridade da informação e do enfrentamento à desinformação. Esse conjunto de políticas públicas pesou positivamente na avaliação da entidade. A melhora do país foi classificada pela RSF como uma das poucas exceções positivas em um mundo em deterioração. Apesar da melhora na posição, o país permaneceu estagnado no indicador político, mantendo a 42ª colocação, e apresentou piora no quesito segurança, caindo da 78ª para a 81ª posição. Na leitura da RSF, isso revela que, embora a relação entre governo federal e mídia tenha se tornado menos conflituosa, persistem problemas mais profundos, como a violência estrutural contra jornalistas, a fragilidade dos mecanismos de proteção, a alta concentração privada no setor de comunicação e o peso contínuo da desinformação no debate público. Agência Brasildesinformante
Apesar da melhora na posição, o Brasil é avaliado como um país em condição problemática, que deve melhorar quesitos políticos, econômicos e sociais. Isso significa que a 52ª posição não é um ponto de chegada, mas um degrau em uma escalada que ainda tem distância considerável da liderança, ocupada pela Noruega, com seu mercado de mídia diversificado, emissora pública forte e editorial plenamente independente. A América do Sul tem o Uruguai na 48ª posição, única nação sul-americana à frente do Brasil. CNN Brasil
A crise global que o Brasil contraria
A liberdade de imprensa nas Américas continuou a deteriorar-se, caindo 14 pontos no Índice Mundial de Liberdade de Imprensa desde 2022, a mesma tendência de queda observada nas duas regiões mais difíceis do mundo para o jornalismo: Europa Oriental e Ásia Central e Oriente Médio e Norte da África. O jornalismo nesta região já vinha sofrendo há tempos devido à fragilidade econômica do mercado de mídia e, na América Latina, à persistente violência contra a imprensa. Abi
Os Estados Unidos registram outra queda pelo quarto ano consecutivo, indo da 42ª posição em 2022 para a atual 64ª. Segundo a organização, Washington caiu nos indicadores de Segurança e de Contexto Político. O presidente dos EUA, Donald Trump, transformou seus repetidos ataques à imprensa e aos jornalistas em uma política sistemática, diz o documento. A queda americana foi impulsionada também por cortes orçamentários em emissoras públicas e pela instrumentalização do sistema jurídico para intimidar redações. Países como El Salvador, Peru e Equador também registraram quedas acentuadas, por razões que vão de assassinatos de jornalistas a recrudescimento da repressão estatal. CNN Brasil
Em 110 dos 180 países avaliados, houve piora no ambiente legal para o jornalismo entre 2025 e 2026, em um movimento que a organização define como uma crescente criminalização da atividade. O indicador legislativo foi o que apresentou a pior deterioração entre os cinco critérios usados pela RSF: político, jurídico, econômico, social e de segurança. Na prática, isso se traduz no avanço de leis de segurança nacional, normas antiterrorismo e processos judiciais usados para intimidar ou prender jornalistas em todo o mundo. desinformante
O que ainda falta para o Brasil avançar mais
A RSF deixou claro que a melhora brasileira, por mais expressiva que seja, não apaga vulnerabilidades estruturais que persistem no país. A concentração da propriedade dos meios de comunicação ainda representa um desafio à pluralidade informativa. Grupos econômicos controlam parcelas significativas das audiências nacionais, o que limita a diversidade editorial real que uma democracia plena requer. A desinformação, por sua vez, segue como um problema sem solução definitiva: redes sociais continuam sendo veículos poderosos de conteúdo falso, e as plataformas digitais ainda operam com regulação insuficiente no Brasil.
O governo não deve somente se abster de interferir como agente de censura. Ele tem que proativamente agir para garantir um ambiente mais favorável ao jornalismo. Isso significa desenvolver políticas públicas e regulações que vão fortalecer essa possibilidade. A gente precisa de novas legislações de regulação das plataformas e da inteligência artificial. A gente precisa de mecanismos de proteção. É necessário um conjunto de leis de fomento ao jornalismo com mais pluralismo e diversidade na mídia e com leis de incentivos. Essas recomendações da RSF funcionam como uma agenda para os próximos passos do Brasil. O país que em 2022 estava no 111º lugar do ranking e hoje ocupa a 52ª posição provou que recuperação é possível em ritmo rápido. Sustentar o avanço, porém, exigirá mais do que a ausência de hostilidade governamental: precisará de políticas ativas de proteção, financiamento e regulação que coloquem o jornalismo independente no centro das prioridades democráticas do país. Agência Brasil
Fontes: Agência Brasil, “Brasil ultrapassa EUA pela 1ª vez em ranking de liberdade de imprensa” | Agência Brasil, “Liberdade de imprensa está em queda nas democracias, alerta RSF” | CNN Brasil | RSF, Índice 2026
Autor: Diego Rodríguez Velázquez