Xilogravura e cordel na terceira idade: o que essas práticas fazem com a criatividade e a identidade do idoso nordestino? 

Diego Velázquez
Por Diego Velázquez
Yuri Silva Portela

Conforme ressalta o doutor Yuri Silva Portela, fundador do projeto social Humaniza Sertão, iniciativa que leva atendimento multidisciplinar gratuito a comunidades carentes em localidades de difícil acesso no Sertão, poucas práticas culturais reúnem em um único gesto tantas dimensões terapêuticas quanto a xilogravura e a literatura de cordel. Esculpir uma matriz de madeira, imprimir os traços sobre o papel e criar os versos que acompanharão aquela imagem é um processo que combina trabalho manual preciso, expressão criativa, domínio de uma linguagem cultural específica e conexão com uma tradição que define a identidade do Nordeste brasileiro de formas que nenhum outro gênero artístico consegue replicar com a mesma profundidade.

Ao longo deste conteúdo, veremos o que essas práticas produzem sobre criatividade, cognição e identidade do idoso nordestino e por que preservá-las é também uma forma de cuidar da saúde de quem as pratica.

O que a xilogravura faz com o cérebro e com as mãos do idoso?

Esculpir uma matriz de madeira para xilogravura é uma das tarefas cognitivas e motoras mais exigentes disponíveis para o idoso que busca estimulação integrada. Na prática, o planejamento da composição visual antes de qualquer corte recruta funções executivas e raciocínio espacial tridimensional. Além disso, a execução dos cortes com goiva e formão exige coordenação motora fina, controle de pressão e precisão direcional que mantêm ativos circuitos cerebrais motores progressivamente fragilizados pelo envelhecimento e pelo desuso. Por sua vez, a resolução de problemas durante o processo, quando um corte não sai como planejado e o artista precisa adaptar a composição, recruta flexibilidade cognitiva e criatividade aplicada.

Como detalha Yuri Silva Portela, o aprendizado progressivo das técnicas de xilogravura tem uma característica específica que o torna particularmente valioso para a estimulação cognitiva do idoso: cada peça apresenta desafios novos que impedem a acomodação cognitiva que ocorre quando o idoso repete sempre a mesma atividade já dominada. O artesão que domina os cortes básicos e passa a experimentar texturas, perspectivas e composições mais complexas está desafiando continuamente seu cérebro de uma forma que mantém a plasticidade neural ativa muito além do que atividades rotineiras conseguem.

O que o cordel faz com a linguagem, a memória e a identidade?

Criar literatura de cordel exige domínio de uma forma poética específica, com métrica, rima e ritmo que seguem padrões tradicionais aprendidos ao longo de décadas de escuta e de leitura. Na prática, compor um poema de cordel recruta memória semântica para acessar vocabulário rico, funções executivas para planejar a estrutura narrativa, fluência verbal para encontrar as palavras certas no ritmo certo e memória episódica para buscar nas experiências vividas o material que alimentará os versos.

Yuri Silva Portela
Yuri Silva Portela

Na avaliação de Yuri Silva Portela, o cordel tem uma dimensão identitária específica que vai muito além do exercício cognitivo: ele é a forma pela qual o Nordeste conta sua própria história, nomeia seus heróis, processa suas tragédias e celebra sua cultura de uma forma que a linguagem formal raramente consegue capturar com a mesma autenticidade. O idoso nordestino que cria cordel não está apenas fazendo literatura: está afirmando que sua visão de mundo, sua linguagem e sua experiência de vida têm valor suficiente para ser registrados e compartilhados.

Transmissão cultural e o idoso como guardião de uma tradição

O valor terapêutico da xilogravura e do cordel para o idoso nordestino vai além dos benefícios cognitivos e criativos individuais: ele está também na dimensão de transmissão cultural que essas práticas carregam. O idoso que domina essas técnicas é frequentemente o último elo de uma cadeia de transmissão que conecta gerações de artistas populares, e sua participação ativa na manutenção e no ensino dessas práticas tem impacto sobre seu senso de propósito e de legado que poucas outras atividades conseguem oferecer com a mesma profundidade.

Conforme aponta Yuri Silva Portela, projetos que reúnem idosos praticantes de xilogravura e cordel com jovens interessados em aprender essas tradições criam espaços de troca intergeracional com valor clínico real para ambos os lados: o idoso que ensina fortalece sua identidade, seu senso de competência e sua conexão com a tradição que sempre definiu quem ele é. O jovem que aprende, por sua vez, recebe uma herança cultural que nenhum currículo formal oferece com a mesma autenticidade.

Como essas práticas podem ser incorporadas ao cuidado geriátrico?

Oficinas de xilogravura e de cordel em centros de convivência, instituições de longa permanência e projetos comunitários de saúde são formas acessíveis e culturalmente adequadas de oferecer estimulação cognitiva, motora e emocional ao idoso nordestino sem os custos e as barreiras de programas formais de reabilitação. O material necessário, madeira, goivas, papel e tinta para a xilogravura, papel e caneta para o cordel, é de baixo custo e amplamente disponível na região.

Yuri Silva Portela pontua que reconhecer a xilogravura e o cordel como práticas com valor terapêutico documentado e não apenas como manifestações culturais a serem preservadas por razões folclóricas é um passo que a medicina geriátrica ainda precisa dar. O idoso que esculpe e verseja está cuidando do cérebro, da identidade e da alma de uma forma que nenhuma lista de exercícios cognitivos consegue tornar tão genuinamente desejada.

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